há alguns dias já não sofro tanto...
não por meu proprio sofrimento, mas por toda a dor de Florentino Ariza, que durante as últimas semanas me contou os segredos mais íntimos do seu coração atordoado, me prendendo pagina à pagina, nas mais de 600 sobre seu irremediável vicio do amor nos tempos do cólera. pelas mãos do mestre Garcia Marquez, fiquei sabendo essa história fantanstica de um amor fantastico, total e desmedido; Florentino Ariza dedica a vida à adoração da mulher amada, a primeira, a única, a verdadeira, que não lhe corresponde, não se sabe amada, querida, idolatrada; o amor de Florentino Ariza é, apesar disso, seguro de que um dia, antes que a morte o leve para longe de sua amada, se lhe será dada a oportunidade de consumá-lo; assim vive esse homem, mergulhado na fantasia de uma certeza distante, vivendo uma vida de sombra à espreita da oportunidade aguardada, com paciencia, com complacencia, com muito amor; amor acima de todas as adversidades, amor em todos os momentos, amor em demasia para apenas uma vida... como é bom saber que pelo menos na ficção existe um amor assim; que alguém foi capaz de imaginar um amor assim; que as pessoas que o lerem se emocionarão sempre diante de tanto padecimento paciente, sentirão que é realmente para isso que estamos vivos: por amor, para amar... nesse nosso tempo de outros coleras, continua a comover a lucidez com que nos põe diante dos fatos da vida as mãos do escritor: o amor, a passagem do tempo, a consequente velhice, a morte, a doença. Florentino Ariza, completamente enamorado, sente no corpo os sintomas do cólera, da peste, da dor física gerada da incapacidade de coroar a sua existência com a inclinação de toda sua alma, de todo seu coração; não podendo ser efetivado, se entrega ao amor carnal, amando de fato e querendo à todas as inumeras mulheres que passam por sua vida, por sua cama, sem nunca perder de vista o primeiro dos seus tropeços adolescentes, que se tranforma em obsessão para toda a vida. quanta coisa pode nos ensinar um personagem ficcional sobre a nossa própria existencia... gostaria de me saber capaz desse modo de amar sem medidas, com abnegação, com todos os pedaços do coração; hoje, amamos à nós mesmos acima de tudo, chegamos ao cúmulo de procurar alguém que não deixe de viver a propria vida por nossa causa, porque é assim que nos parece mais pratico viver a nossa. a nossa medida de amor esta na cotação das nossas proprias vontades , da nossa independência mal conquistada de seculo vinte um, de cosmopolitas sem nenhum espaço para a entrega nas agendas lotadas; não há mais espaço para amar assim; é feio sofrer, chorar, entristecer-se por amor, até porque temos mais o que fazer... triste e feio porém, é exatamente a ausencia desse padecimento, nem que seja uma só vez, por um momento; o amor deve voltar a ter espaço nos corações do terceiro milenio, mais preocupados em se encouraçar de cinismo para nao sofrer o vexame de sofrer... temos que entender que, como bem diz Florentino Ariza, o coração tem mais quartos que um hotel de putas. |

1 Comments:
Natascha,
o grande Camões já falava o mesmo que Florentino Ariza, e olha que foi no século XVI, aqui tá uma amostra:
"Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?"
Post a Comment
<< Home