Saturday, July 22, 2006

barulho

Cansa viver no barulho; todos os dias, o despertar barulhento do alarme pulsante me acorda para uma realidade de freadas de ônibus, buzinas de taxis, alarmes de carros, apitos de guardas de trânsito desesperados, gritaria, batidas contínuas de obras intermináveis e toda sorte de caos sonoro proveniente dessa cidade que nunca esteve tão barulhenta.
durante o dia, ouvir talvez uma boa música ou ter alguns minutos de silêncio são luxos efêmeros, gotas gorduchas e douradas de paz que logo caem no mar de fargor caótico no qual estamos boiando à deriva. os ouvidos são atacados com uma enxurrada de ruídos e logo são afogados sem resgate nesse oceano de sons dissonantes que irritam e causam dores de cabeça constantes.
a todo momento, se escuta involuntariamente pedaços de vida alheia, gritados no ônibus, na mesa ao lado, no celular que cruza a rua ou ainda - na modalidade mais cruel de comunicação - naqueles rádios que, além de apitar insistentemente, permitem que se ouça os dois lados de uma conversa qualquer.
as pessoas - que contam cada vez menos com senso das coisas e noção do que quer que seja - estão a cada dia mais barulhentas, as máquinas e os aparelhos, espalhados por todos os lados, colaboram e o trânsito faz a sua parte como sempre. a fazem também os incansáveis pedreiros das duas obras eternas alguns andares abaixo do meu apartamento. as vezes me parece que o único intuito dessa quebradeira desenfreada é atrapalhar meu sono e um dia quebrar todas as paredes do prédio, fato que culminaria no maior barulho de todos: o desmoronamento sem controle de toda minha casa, de toda minha vida. assim é, tanto que tenho tido fantasias nada eróticas com esses homens: sonho em arrancar-lhes mãos e braços antes que tenham sucesso nessa empreitada.
talvez viver na paz e tranquilidade de um campo remoto seja pouco apelativo aos olhos dos habitantes cosmopolitas que somos; talvez acabasse por entediar-nos sem remédio em pouco tempo. agora, porém, o fato é que já nem me lembro mais da sensação de silêncio.

1 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Olhaaa, eu nem sabia que os devaneios em terra tinham vindo parar aqui. Te achei, e volto pra acompanha-la sempre q possivel hehe! Por hora, saudades e bom silêncio pra ti (tem um tapador de ouvido laranjinha que é ótemo e baratinho na farmácia hahaha). Bjao!

1:25 PM  

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