Thursday, January 19, 2006

circo

sempre gostei do circo, me fascina a idéia de que pessoas como eu pode tranformar-se por alguns momentos em criaturas idílicas, desafiando com o corpo os limites estabelecidos para o cotidiano, sentindo-se livres para pular, saltar, planar, voar. não são apenas movimentos belos e fluidos, mas a atmosfera para a qual nos sentimos transportados é como espiar acordados um pedaço dos mundos que só existem nos sonhos das crianças mais felizes; sim, o circo é essencialmente infantil, pois raros são os momentos na vida adulta onde nos entregamos ao fascínio pueril perdido ou negligentemente empurrado para o fundinho do pensamento; crescemos e assim suprimimos o espaço para o encantamento diante do novo e do inesperado e o circo nos ajudar a trazer alguns desses momentos de volta.

para algumas crianças porém, a realidade é cruelmente apresentada de forma abrupta e precoce, uma realidade que não lhes é compreeensível e que lhes tira injustamente o espaço para os sonhos infantis. foi o que senti subindo as inúmeras curvas íngremes que me levaram ao núcleo do afro-reggae no alto do morro do cantagalo onde, cercada por uma vista de cartão postal da nossa quebrantada cidade maravilhosa, funciona a escola de circo do grupo. acontecia então um ensaio para as futuras apresentações, parte do calendário comemorativo dos 13 anos de funcionamento da ong. munidos uma determinação com a qual estão acostumados a enfrentar as adversidades cotidianas, pouco mais de uma dúzia de pessoas treinavam para dar leveza e harmonia à movimentos que, sem essas qualidades, seriam apenas evoluções aleatórias de braços e pernas, mas que, cheios delas - leveza e harmonia - se transformam naquilo que representa a essência do circo: o sonho.

é inegável que para um bom desenvolvimento a criança necessita ter supridas as necessidades básicas: comida, moradia, educação, higiene, saúde. isso porém não é o mais básico aos olhos de uma criança que quer também ter espaço para brincar, sonhar, pular e visitar mundos somente acessíveis quando ainda se tem o frescor e a ingenuidade de um pequeno. se a existencia sofrida lhes tira iniquamente essas oportunidades, entao cabe à nós que podemos devolver-lhes nem que seja um pouco do ensejo para fantasiar e expandir os limites de uma realidade que deveria conter em si um lugar cativo para a fantasia. me alegra saber que sempre vão existir aqueles dispostos a isso.


Saturday, January 14, 2006

há alguns dias já não sofro tanto...

não por meu proprio sofrimento, mas por toda a dor de Florentino Ariza, que durante as últimas semanas me contou os segredos mais íntimos do seu coração atordoado, me prendendo pagina à pagina, nas mais de 600 sobre seu irremediável vicio do amor nos tempos do cólera. pelas mãos do mestre Garcia Marquez, fiquei sabendo essa história fantanstica de um amor fantastico, total e desmedido; Florentino Ariza dedica a vida à adoração da mulher amada, a primeira, a única, a verdadeira, que não lhe corresponde, não se sabe amada, querida, idolatrada; o amor de Florentino Ariza é, apesar disso, seguro de que um dia, antes que a morte o leve para longe de sua amada, se lhe será dada a oportunidade de consumá-lo; assim vive esse homem, mergulhado na fantasia de uma certeza distante, vivendo uma vida de sombra à espreita da oportunidade aguardada, com paciencia, com complacencia, com muito amor; amor acima de todas as adversidades, amor em todos os momentos, amor em demasia para apenas uma vida...

como é bom saber que pelo menos na ficção existe um amor assim; que alguém foi capaz de imaginar um amor assim; que as pessoas que o lerem se emocionarão sempre diante de tanto padecimento paciente, sentirão que é realmente para isso que estamos vivos: por amor, para amar... nesse nosso tempo de outros coleras, continua a comover a lucidez com que nos põe diante dos fatos da vida as mãos do escritor: o amor, a passagem do tempo, a consequente velhice, a morte, a doença. Florentino Ariza, completamente enamorado, sente no corpo os sintomas do cólera, da peste, da dor física gerada da incapacidade de coroar a sua existência com a inclinação de toda sua alma, de todo seu coração; não podendo ser efetivado, se entrega ao amor carnal, amando de fato e querendo à todas as inumeras mulheres que passam por sua vida, por sua cama, sem nunca perder de vista o primeiro dos seus tropeços adolescentes, que se tranforma em obsessão para toda a vida.

quanta coisa pode nos ensinar um personagem ficcional sobre a nossa própria existencia... gostaria de me saber capaz desse modo de amar sem medidas, com abnegação, com todos os pedaços do coração; hoje, amamos à nós mesmos acima de tudo, chegamos ao cúmulo de procurar alguém que não deixe de viver a propria vida por nossa causa, porque é assim que nos parece mais pratico viver a nossa. a nossa medida de amor esta na cotação das nossas proprias vontades , da nossa independência mal conquistada de seculo vinte um, de cosmopolitas sem nenhum espaço para a entrega nas agendas lotadas; não há mais espaço para amar assim; é feio sofrer, chorar, entristecer-se por amor, até porque temos mais o que fazer... triste e feio porém, é exatamente a ausencia desse padecimento, nem que seja uma só vez, por um momento; o amor deve voltar a ter espaço nos corações do terceiro milenio, mais preocupados em se encouraçar de cinismo para nao sofrer o vexame de sofrer... temos que entender que, como bem diz Florentino Ariza, o coração tem mais quartos que um hotel de putas.

sexta feira treze de lua cheia

a semana havia começado já com uma sucessão de tombos inexplicáveis entre as amigas próximas e isso fez com que passássemos a pensar que, de fato, as bruxas estavam à solta, rondando a tal data cabalística; as bruxas as quais nos referimos vagamente tem em sua origem a lenda nórdica da deusa do amor, transformada em bruxa feia pelo conversão cristã dos povos barbaros do norte; desde entao, dizia-se que a tal bruxa se reunia com mais 12 convivas - 11 bruxas e um demonio - às sextas feiras para maldizer a humanidade e rogar-lhes pragas; fala-se tambem que um jantar com 13 pessoas à mesa é sinal de desgraça certa, superstição novamente baseada na rica mitologia nórdica; povos orientais por sua vez, atribuem ao numero 13 poderes magicos de prosperidade e sorte, apresentando em sua iconografia religiosa diversos exemplos de adoração ao numero ou a deuses diversos nessa quantidade;a sexta-feira nas religões pagãs européias era, de modo geral, o dia da semana dedicado aos deuses, e sendo o 13o. do mês, conferia à data uma força ainda mais especial, seja para o bem ou para o mal.
com tantas controvérsias, é dificil que a data passe batida até para os mais desavisados, e ontem em especial, houve um toque de grandeza e misticismo envolto pela lua cheia, grande e brilhante, surgida no ceu por detras das montanhas, toldada por uma nuvem que lhe transpassava o lustro amarelado e perfeitamente redondo: assim mostrou-se a lua em todo o seu esplendor. dizem os místicos e astrólogos que o momento em que o sol se pôs e a lua nasceu em paralelo perfeito era uma conjunção cósmica rara que faria mudar os rumos da humanidade; diante de tanto poder, nao restou-me opção a nao ser ir saudar a lua e enviar para o universo a minha parte de toda a boa energia que flue entre ceus, terras, mares, estrelas e cometas, pondo em circulação vibraçoes positivas das quais a nossa raça está tão necessitada... não costumo ser dada à misticismos baratos, mas me parace inegável que a troca de energia e boas vibraçoes entres os seres seja mesmo a força motriz que proporciona o movimento harmonico e perpétuo do universo. nesse caso, se podemos, com um mínimo de esforço, tentar tornar nosso mundo mais habitável e nossa vida mais pacífica, por que nao começar numa sexta-feira treze de lua cheia?!

Friday, January 06, 2006

2006

eu comecei a escrever varias vezes desde que comecou o ano, mas concentraçao e inspiraçao desvanecem muito facilmente quando estamos em um certo estado letargico e nao muito animado...
nem tenho motivos reais, a ano virou e continuo por aqui, me virando, virada, as ideias ainda sem achar seu lugar porem presentes em profusão.
ainda não fiz a minha classica lista de resoluçoes e então é chegado o momento de me prometer coisas aparentemente faceis - nao é possivel, um ano desses eu ainda vou me ver riscando uma por uma delas, dizendo, pronto, feito... será que 2006 me dará esse prazer?
durante alguns anos a minha unica resoluçao de ano novo foi tentar falar menos; simples nao?! nem um pouco se se é chegado a uma diarréia verborragica como eu; aprendi porem que se escrevo que quero dizer e nao devo, nao posso, isso nao acontece... enfim, se escrevo me livro de algumas neuras sem verbaliza-las e sem machucar ninguem, especialmente a mim mesma; continuo porem, no firme proposito de dizer sempre as verdades que me parecem nem sempre apropriadas mas inevitaveis.
voltando a lista de resoluçoes, é uma constante que começe singela e desande para delirios e utopias pessoais, por isso vou tentar me ater ao que se me afigura mais evidente.
liderando o rol, uma preocupaçao tipicamente feminina, que nao chega a ser na minha vida um trauma nem neurose, apesar disso, sempre ha espaço para melhoras: emagrecer... ponto fundamental quando entramos o ano e o verão das gigogas com varios quilos de sobra, daqueles q so no escurinho sao bons de apertar! emagrecer não é das tarefas mais simples, não é no entanto impossivel e sim essa eu vou riscar da lista antes que ano vire de novo, ou antes que eu vire anos esse ano.
logo em sequencia vem a decisão de escrever mais e ler mais; ler sempre figura na lista dos top 10 e isso eu chego bem perto de conseguir, ler mais e mais variados temas e autores, ler em outras liguas, ler de outras pessoas; quero agora tambem ser lida e quanto mais escrever maior a chance de isso acontecer; esse topico tem alem disso um outro fator, não sao apenas esses meus devaneios diarios que pretendo escrever, quero que esse seja o ano em que finalmente os meus personagens comecem a fluir por entre minhas ideias e meus dedos e saiam de uma vez por todas de dentro da minha cabeca; contos e historias, é isso que escreverei para serem lidos, esse e todos os anos que se seguem.
ganhar dinheiro nao poderia ficar de fora de uma lista de expectativas, eu gosto de dinheiro e me faz falta se nao o tenho, mas nao pretendo fazer disso uma obsessao pouco saudavel e se o que vier der pro gasto, ja esta de bom tamanho.
o mais importante eu deixei pro final: a minha maior vontade para esse ano e para todos os proximos e para toda a gente é definitivamente encontrar amor; onde quer que esteja, de que forma seja, como que gosto tenha, amor é sim fundamental, amar certamente ajuda em todas as outras propostas, amar e, é claro, ser amado; essa é a melhor de todas as resoluções... escrevam na lista de voces se ainda nao o tem, e o mantenham vivo se ja o acharam; boa sorte para todos nos que só queremos ser felizes, 2006 é o ano pra isso!
p.s. nao reparem a euforia tipica de comeco de ano, em breve creio que o azedume e o cinismo voltam aos seus lugares de honra em minhas palavras...