barulho
durante o dia, ouvir talvez uma boa música ou ter alguns minutos de silêncio são luxos efêmeros, gotas gorduchas e douradas de paz que logo caem no mar de fargor caótico no qual estamos boiando à deriva. os ouvidos são atacados com uma enxurrada de ruídos e logo são afogados sem resgate nesse oceano de sons dissonantes que irritam e causam dores de cabeça constantes.
a todo momento, se escuta involuntariamente pedaços de vida alheia, gritados no ônibus, na mesa ao lado, no celular que cruza a rua ou ainda - na modalidade mais cruel de comunicação - naqueles rádios que, além de apitar insistentemente, permitem que se ouça os dois lados de uma conversa qualquer.
as pessoas - que contam cada vez menos com senso das coisas e noção do que quer que seja - estão a cada dia mais barulhentas, as máquinas e os aparelhos, espalhados por todos os lados, colaboram e o trânsito faz a sua parte como sempre. a fazem também os incansáveis pedreiros das duas obras eternas alguns andares abaixo do meu apartamento. as vezes me parece que o único intuito dessa quebradeira desenfreada é atrapalhar meu sono e um dia quebrar todas as paredes do prédio, fato que culminaria no maior barulho de todos: o desmoronamento sem controle de toda minha casa, de toda minha vida. assim é, tanto que tenho tido fantasias nada eróticas com esses homens: sonho em arrancar-lhes mãos e braços antes que tenham sucesso nessa empreitada.
talvez viver na paz e tranquilidade de um campo remoto seja pouco apelativo aos olhos dos habitantes cosmopolitas que somos; talvez acabasse por entediar-nos sem remédio em pouco tempo. agora, porém, o fato é que já nem me lembro mais da sensação de silêncio.